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Eu sempre dizia querer ser astronauta, ou músico virtuoso que nunca perderia uma nota, seria tudo na vida em uma mesma história, seria o início e o fim de uma simples memória, nunca ficaria na segunda fila do que importa.

Eu nunca seria um, perdoe o francês, nunca seria um idiota.

Mas tomei a sopa mais fria que não me queimaria nunca, tomei o caminho mais curto para a casa da cuca, comprei feijões a troco de vaca. Comi a maçã (mas quem nunca), me alfinetei em uma agulha, e dormi abraçado a uma roca. Acordei com orvalho em meus olhos, porque chorar nunca foi a cura, e simplesmente fiz minhas malas e fui embora, sem me despedir.

Eu nunca seria, perdoe o inglês, um has-been.

Mas como sempre acontece com um humano no mundo, eu simplesmente me perdi, coloquei meu coração em um bolso e o esqueci, aqui presente em minha alma num momento e perdido em um segundo, num momento em minha garganta seca e em outro fecundando solo úmido, como toda semente deve ser.

Eu nunca seria, perdoe o português, a memória do que você sempre quis, mas nunca, nunca poderia ser.

Eu sempre disse ser astronauta, o rapaz gordinho que conta as estrelas como namoradas, o menino vantageando amores impossíveis no canto da sala, o tocador em calças de linho perdido em um aparentemente interminável solo de flauta.

Eu sempre fui o menino no fim do pique pedindo altas.

Published in: on fevereiro 7, 2015 at 3:54 am  Deixe um comentário  

Inesperar 2

Em toda noite em que você diz, “eu não sei mais quem eu sou”, eu sussurro as poesias mais antigas, em nossa roda as nossas mais pré-históricas cantigas, de uma brincadeira que se prolonga infinita, mas nunca realmente se acabou.

Porque se não sabia, pelo menos intuía uma verdade que se amadureceu, nunca se tornou negra, nunca se tornou além da vida, nunca realmente se apagou.

Como nossa filha, a verdade cresceu, achou como trepadeira um arame guia, e simplesmente se multiplicou.

Como nossas vidas, a impermanência do que eu não sabia resolveu somente ser linda, ser simplesmente uma menina, e como toda criança que brinca se reimaginou.

Como a boneca que se veste, como o soldado de chumbo que luta uma guerra que não entende, todos são avatares de uma mitologia que se reescreve com a vida de todo seguidor, seja a crença em uma vida após a vida a flutuar, seja a certeza de que todos os átomos de nossas canelas depois se tornam partes de crateras presentes em uma nova lua a brilhar.

Em toda noite em que você diz, “eu não sei mais quem eu sou”, eu evito espelhos, vapores baratos de frases de efeito, e te mostro o que mais em mim mudou, seja a forma em que penteio meus cabelos, ou o perfume novo que em um mesmo pescoço depende de gostos mais rarefeitos, e desejo ser somente um pouco mais do que já sou.

Porque daquele menino que tentou tirar beijos novos da cartola, que imaginou ser mágica a fórmula de uma música lenta na vitrola, muito pouco se estragou, ele ainda caminha entre a palavra sublime e a palavra galhofa, ainda pensa de forma um pouco tola a linha da mão certa que te toca.

Ele ainda se importa.

Então em toda noite em que você diz, “eu não sei mais que em sou”, eu gargalho noite adentro com o mais tranquilo sentimento de não saber, porque se eu realmente te entendesse nunca poderia amar o que você poderia realmente um dia ser, nunca imaginaria uma vida após a morte, ou meus átomos flutuando por uma lua que nunca iria conhecer.

E não saberia , como em toda noite de nossas vidas, inesperar você.

Published in: on julho 19, 2014 at 3:40 am  Comments (3)  

Menino-Rei

Quando era criança e buscava coragem, me sentia entre a elação e o suplício, trocando os dentes de leite pelos sempre fixos, experimentando ressabiado o novo e ardido dentifrício, sorrindo com os olhos aflitos, os primeiros passos no artifício de bater no peito e pedir mais.

A coragem que nunca se desanima pelo que não sabe mais, que chuta latas paradas nas esquinas nem cogitando a pedra que lá dentro jaz, que empina pipas em linhas finas confiando que o vento faça o que sempre faz.

Que as sopre em lufadas vespertinas até o contato do cerol, para que nossas mensageiras de seda se percam no mesmo lugar onde dorme o sol.

Ser criança é aprender a perder a inocência da mesma maneira que se desata um nó, a princípio tão difícil que quando as linhas se separam há um alívio da linha reta por si só, os caminhos abertos para novos laços, para novos abraços, pra novos nós.

Eu e você, seu sorriso e meu suspiro, suco de laranja e dentifrício, no fim do asfalto um novo caminho, uma nova aventura para se viver.

Porque quando criança buscava coragem em esconderijos, o coração disparado em mil fantasias de policiais e bandidos, enquanto adulto busco a mesma coisa em abrigos, pois entre o que desejo e o que eu sinto existe  uma infinidade de ” não sei”.

O que era brinquedo vira jogo de xadrez.

E no fim das coisas, em toda minha vida, protejo e ressuscito o menino que na verdade nunca matei.

O meu velho e eterno menino-rei.

Published in: on agosto 18, 2013 at 3:11 am  Deixe um comentário  

Ben

Eu me declarei para você na noite fria, não porque seria mais romântico, não porque o vapor de minha boca pareceria transatlântico, mas porque pura e simplesmente não sabia o que você desejaria, se derreteria em um toque pleno ou uma cantada evasiva, se persistiria no que te faz cheia ou preencheria o que te faz vazia.

 

Porque em todas as noites em que cantei silenciosamente por você, eu me esquecia das rimas e versos mentais que saberia que iriam acontecer, não pela ansiedade, mas pela saudade de quando só contava com minha carne para te satisfazer, de todas as palavras não ditas selecionando somente os toques que te daria para somente competir.

 

Sendo meu toque a  diferença entre te fazer gargalhar e simplesmente te fazer sorrir.

 

Então me declarei, ao som de violinos e o que mais contribui para o tilintar morno das taças de vinho que se enchem, me declarei ao vazio que saberia existir caso não me respondesse, contei meu amor como se nada além dele acontecesse, como se nada me importasse além do mistério que se extende entre o meu espaço e o seu.

 

Ou seja, te fiz uma parte minha do meu pedaço que ainda não morreu, te fiz minha menina para toda melodia que já cantei, dancei a noite toda ao som de um ritmo que nunca foi meu.

 

Porque foi o que eu podia, foi o que a vida me deu.

 

Porque foi o que me cabia, o que me garantiria que toda foto de seu passado mostraria pelo menos um dedo meu.

Published in: on outubro 18, 2012 at 5:02 am  Deixe um comentário  

A Trick of The …

A Trick of The Light

 

But that´s not her/ that´s just the light/ it´s only an image of her/ just a trick of the light”

 

David McComb – The Triffids – “ A Trick of The Light”

 

 

Se acredito em algo, é no que nos aproxima, o que te disse na noite passada, as palavras sussurradas em datas festivas, as sentenças fechadas das estações mais cativas do que eu poderia sentir pelo ar.

Eu, o menino que canta sobre velas votivas a fé em simplesmente acreditar, seja em aventuras meninas, ou sobre noites em que falha o luar, toda ciência estricnina ao que eu simplesmente evitava convulsionar.

E não há remédio que nos faça parar, não há oração contrária ao que nos caiba acreditar, porque em toda minha vida não há nada mais que significa o que possa te contar.

Porque acredito em tudo que nega três vezes antes do galo cantar, bebi seu corpo e comi tua alma antes que escrevessem sobre as refeições que irão nos faltar, me banqueteei com sua voz pequenina e a grandiosidade que ela quer contar.

Eu segui sua vida, e descobri que tudo que me conta explica onde quer morar, entre a perspectiva da avenida e a inevitável esquina por onde todos nós teremos que virar, o desconhecido dessa vida e da outra que virá.

As placas conhecidas se misturando às inescrutáveis que virão, o meu caminho cruzando com o seu em uma só definição, seja o ventrículo ou o átrio de um inalcançável e eterno coração.

 

“Now you remind very much/ of someone that I used to know/ we used to take turns and cry all night/ oh, but that was so long ago now…”

 

Published in: on agosto 25, 2012 at 4:52 am  Deixe um comentário  

Todas as Nossas Palavras

Todas as nossas palavras são torres, pedaços de uma história antiga que espanta aos que vem nos visitar, construídas por seres que nunca conseguiriam nos imaginar, da mesma maneira que não imaginamos os filhos de nossos filhos a nos imitar, quando viramos cantigas, refrãos e estribilhos nas bocas dos meninos do futuro  com quem nunca poderemos conversar.

 

Pois tudo que digo já foi sentido, mas precisa ser recontado para ser vivo entre o que penso e o que quero lhe falar, todas as sílabas isoladas em uma corrente de desejos que só quem forja os elos pode arrastar, o fantasma dos invernos em que um jovem Werther não tinha nada além de si mesmo para abraçar.

 

Em que um menino só lia o que sabia ser a forma mais solitária de conversar.

 

Todas as nossas palavras são flores, sentimentos embalados em frascos inodores ao senso comum, sendo o perfume mais profundo compatível ao tamanho do mundo que desejamos conquistar, o território pantanoso onde somente o sentimento mais puro pode flutuar, onde um barco solitário pode se encontrar com outros à deriva no mar.

 

Pois tudo que sinto já foi dito, mas precisa do perfume certo para nos lembrar, do toque de canela e menta exato para nos levar àquele lugar, onde tudo que você foi se junta e no fim se transforma no que você será, a soma dos diminutos sorrisos que se reúnem em uma gargalhada espalhafatosa que infecta o ar.

 

O ar de um menino tranquilo que só sabia se preocupar, mas que descobre que nada na vida pode ser pior do que não estar, porque quem ama tem medo, aquele medo de não mais amar.

 

Todas as nossas palavras são cores, desde as mais vibrantes até aquelas invisíveis ao olho nu, as que inspiram suspiros duradouros, e as que queimam disfarçadas de luz.

 

Todas as nossas palavras são cartas de amor destinadas a quem as lê, mas também para quem as conduz.

Published in: on julho 15, 2012 at 2:30 am  Deixe um comentário  

Novas Pirâmides

Fala baixinho que eu te escuto, porque do trovão o que a gente guarda é o murmúrio da lição que não se sabe ignorar, a eletricidade que corta o céu escuro lentamente pelo ar, o que queríamos tanto dizer mas só é possível demonstrar, porque de todas palavras que dizemos somente o silêncio tem a capacidade de ensinar.

 

Porque o que se guarda, o que extravasa, são as canções que somente nossas mães podem cantar, e eu me lembro dos carinhos, eu me lembro dos sorrisos da mesma forma que me lembro de tudo que me fazia chorar.

 

A tristeza é tão amiga quanto a cantiga que exige todas as mãos pelo ar, e a alegria tão inimiga quanto as orações benzidas quando queríamos nos confessar.

 

Eu sei que quando a vida nos bate ela imagina nos beijar, eu sei que a ferida mais ardida nos machuca para um dia nos curar, mas dói, dói saber que quem nos açoita imagina com a ponta do chicote nos acariciar.

 

Aprendendo nas batidas toda a reconstrução que o futuro promete alcançar.

 

Então entenda, eu não apostei no cavalo errado, não grito nem me mantenho calado pelo simples prazer de te ignorar, eu deixo tudo de lado porque te amo e não preciso da batalha para me alimentar, não me torno meio corajoso ou mais macho com umas oitavas a mais de voz para ganhar, porque eu tenho o eco do meu lado.

 

O eco do passado que não preciso repetir, o de construir pirâmides fortes entre as tantas que podem ruir, o que nunca mais quero saber misturado a todos os lugares onde não quero mais ir.

 

Eu falo baixo não para te perseguir, não para que chegue mais perto, não para que os barulhos de fora possam interferir.

 

Eu falo mais baixo simplesmente para você ouvir, para que deixe toda a cacofonia de fora, e preste atenção em mim.

 

Então fala, fala baixinho, fala enfim.

Published in: on junho 29, 2012 at 2:45 am  Deixe um comentário  

Redescoberto

Entender a si mesmo é uma viagem de vida inteira, descarta leituras de linhas de palma, simpatias em espelhos d’água sob a lua cheia, porque de alguma forma toda meia-noite da alma evolui para uma madrugada alvissareira, todo naufrágio é precedido pelo canto intraduzível de sereia, e não me importa se é uma busca solitária ou uma jornada de mãos cheias, sempre nos dividimos entre o que sai e o que entra, entre o que se faz e o que se tenta.

 

O que se fala ou o que se suspeita.

 

Eu andei por esses campos de grama alta, como um andarilho que olha o horizonte como a parte que falta a se percorrer, cada montanha que se escala uma nova sala a se construir na minha casa, cada rua que se desbrava um novo cadeado que se destrava com um segredo que não precisei adivinhar.

 

Pois presdigitei minha vida até um dia te encontrar.

 

Entender a si mesmo é uma forma de magia, onde luvas de veludo buscam de forma secreta a sua hora mais tranquila e a transformam em vento solar, aquele sentimento que inicialmente benfazejo embaralha as transmissões e confunde seus sinais, aquele momento tão claro que se transforma em um instante em quadro molhado de aguarrás.

 

Quando a vida transforma o meu passado somente naquilo que ficou pra trás.

 

Entender a si mesmo é uma medida contida de superstição, quando se sabe que o que se sente é somente um soluço em toda uma equação, o futuro uma incógnita tão desconhecida quanto o seu universo em expansão, o que você simplesmente decide não conhecer.

 

Seja sua face mais velha no espelho, sejam as expressões de seus filhos que parecem te pertencer, as piscadas de olho, as mordidas de lábios que jurou ensaiar até se tornarem você, todas enfileiradas em uma versão melhorada do que queria ser.

 

Entender a si mesmo é ser um ser infinito eternamente redescoberto.

 

Entender a si mesmo é ser pai, ser avô, ser filho,ser neto.

Published in: on junho 7, 2012 at 3:52 am  Deixe um comentário  

Noite e Dia

Eu quis te contar um segredo, para quando não houvesse mais nada a ser descoberto, uma expressão consciente de meus pensamentos mais secretos, aqueles do frio da noite em que me deito encoberto, os desenhos de histórias que rabisco no branco do teto, as mãos cruzadas atrás do travesseiro respirando lentamente esperando o sono me arrastar.

 

Os pensamentos que desenvolvo quando você não está perto, as teorias, os devaneios, as viagens sobre mares de segredos que sussurram seus desejos intraduzíveis de profundeza, os navios ao longe como brinquedos que com a correnteza se fingem perdidos de amor, a surda certeza de que o que se ouve não compara ao que se diz, de que todo relacionamento vinga mais um dia por um triz.

 

De que nunca conseguiria te fazer feliz.

 

Eu quis te contar um segredo, mas eles são somente as dúvidas que uma ausência traz, pois se chega de soslaio, com um jeito malandro de que frita o peixe vigiando o gato, eu me esqueço do que havia pensado, me pego vendo um filme lado a lado, nossos joelhos e pernas entrelaçados, e me imagino um livro aberto.

 

Me imagino o mais correto exemplar do exemplar de homem doméstico, aquele que chega em casa quase que por telégrafo, avisando com a buzina antes de abrir o portão elétrico, que vive com crianças dependuradas em seus ternos, que tem o sorriso mais simples e fácil que se possa imaginar.

 

O homem que para te fazer feliz só precisa estar lá.

Published in: on maio 10, 2012 at 4:21 pm  Deixe um comentário  

Mais Comprida

Toda casa se finge vazia, quando não há uma bicicleta encostada onde não deveria estar, as rodas girando sozinhas no lugar onde ela deveria se sentar, o vice-versa do contrário, o mundo visto de cabeça para baixo de uma vida que não julga ainda o certo e o errado, de uma pessoa treinando viajar.

Uma pessoa sem bagagem conhecendo o seu lugar.

Toda casa se finge adulta, quando cuida de quem não entende a própria culpa, porque só sabe confessar, seja a alegria repentina, a tristeza que desafia toda sua forma de pensar, não conhece o meio-termo, não se contenta com mais ou menos, simplesmente quer falar.

(Desde que seja sobre o que lhe interessa, não importa qual a pressa na qual seu pobre pai vai se encontrar).

Toda casa se finge abandonada, quando não se tropeça em brinquedos pela entrada, quando não se abafa uma gargalhada com um abraço ao se chegar, os cabelos tão compridos (que ainda ontem eram mínimos) envolvendo os seus joelhos no sofá.

E quando me pede uma estória, eu tenho um caso pra contar.

Porque me disseram uma vez que os menores dentes fariam o melhor sorriso, e eu não conseguia acreditar, que entre dentes de leite sem juízo e sem siso haveria uma felicidade que nunca poderia imaginar, as risadas compridas percorrendo  o contrario das horas vividas, a sua vida na forma de uma menina em um eterno recomeçar.

E tanta vida existe em você, minha querida, que eu nem preciso te explicar, pegue a estrada mais comprida, não economize sua corrida, vá ser tudo que puder ser.

Porque, ainda bem (e por mais que nas suas horas mais sombrias um pai possa querer), eu não posso viver sua vida por você.

Published in: on março 24, 2012 at 2:21 am  Deixe um comentário